Temos observado nas Empresas a emergência de conflitos internos e barreiras ao alto desempenho derivados de um Paradoxo bastante provocativo: Exigência de Inovação versus Síndrome da Complexidade Predatória. Se por um lado a Inovação tornou-se prerrogativa chave para assegurar a longevidade empresarial, por outro tem provocado a Síndrome da Complexidade Predatória – a doença organizacional mais perversa do mundo empresarial contemporâneo. A criação excessiva, desenfreada – e por vezes desnecessária – de Iniciativas de quaisquer naturezas, novos processos, sistemas, produtos e serviços têm gerado uma complexidade perigosa que atola as empresas em centenas de projetos, tira o foco dos(as) executivos(as) das prioridades da Estratégia e drena para o ralo recursos financeiros, tempo de gestão e energia das pessoas.
Parece-nos que saber priorizar os Projetos Estratégicos, renunciar aos não prioritários e focalizar na execução obstinada dos escolhidos tornaram-se uma fraqueza competitiva generalizada que tem deteriorado a rentabilidade e engessado a agilidade vital das empresas. A Síndrome da Complexidade Predatória cria armadilhas que entravam a produtividade e acabam tornando-se difíceis de desarmar e se livrar – pela coragem necessária para assumir o prejuízo de tamanhos desperdícios.
Movimentos agressivos de inovação precisam ser cuidadosamente planejados e gerenciados, porque adicionam complexidade nas operações da empresa – e como os custos de se gerir esta complexidade se multiplicam, as margens tendem a se encolher.
Por isso, nos processos de Planejamento Estratégico, temos insistido para que as empresas tenham muito cuidado e foco nas suas Escolhas. Um Planejamento Estratégico é um Programa de Rupturas, de breakthroughs. E fazer Rupturas em Temas Estratégicos para o negócio exige foco, disciplina de execução, envolvimento e vigilância contantes. Assim, um excesso de Escolhas gera uma diversidade de Rupturas que a empresa não consegue realizar simultaneamente. Recomendamos fortemente cuidado com a Complexidade Predatória: melhor implementar poucas Iniciativas bem feitas do que inúmeras superficiais.
Neste momento, estamos vivenciando um caso muito interessante: uma grande empresa tem perdido espaço para a concorrência num setor em que liderava com conforto. Um exame mais aprofundado do quadro nos mostrou claramente que a empresa sofria da Síndrome da Complexidade Predatória: elegeu 75 Projetos Estratégicos que estavam dragando o tempo de gestão dos altos executivos – e, naturalmente, com resultados decepcionantes no conjunto.
Propusemos uma revisão da lista, realizando 2 procedimentos:
- Classificar os Projetos em Ruptura e Melhoria Contínua. Aqueles que não têm natureza de Intervenção / Ruptura deveriam ser classificados de Ações de Melhoria Contínua, que apresentam uma abordagem de execução menos sofisticada e absorvente;
- Ranquear os Projetos por 2 conjuntos de critérios de avaliação: Facilidade de Execução e Valor Agregado. Em Facilidade de Execução, classificamos as Rupturas por nível de investimento para sua realização; grau de urgência de implantação; e grau de complexidade de implantação. Em Valor Agregado, classificamos as Rupturas pelo grau de impacto positivo sobre as Fraquezas Competitivas da Organização no sentido de bloqueá-las ou minimizá-las; criação de atratividade e competitividade sob o ponto de vista do Cliente; e grau de impacto positivo sobre o desempenho da empresa (geração de Valor). Assim, identificamos as Iniciativas que proporcionariam o máximo Valor Agregado com menor Complexidade de Execução.
A empresa se deu conta do excesso de Intervenções que justificavam a perda de foco da empresa e, por conseguinte, de espaço para a concorrência – que por sua vez vinha atuando de maneira focada nas suas principais Plataformas de Crescimento. Embora simples, este procedimento ajudou a empresa a conscientizar-se da Complexidade Predatória que vinha entravando o crescimento rentável da empresa.
Convido você a compartilhar e discutir casos em que tenha enfrentado a Complexidade Predatória na sua empresa ou carreira, e as saídas que encontraram para dissolver essa Complexidade Predatória e promover o foco nas Escolhas primordiais da Estratégia.
Grande abraço,
Fernando Luzio
CEO
Luzio Visão Estratégica Holística
Acredito que foco é um dos grandes desafios para que uma empresa consiga crescer de forma sustentada. E o mais difícil não é tanto definir os critérios para estabelecer este foco, mas sim fazer com que estes critérios sejam COMPARTILHADOS por todos dentro da organização, e efetivamente APLICADOS.
É muito difícil para qualquer ser humano que compõe uma organização abrir mão de seus hábitos, de suas crenças, do seu modelo mental. Por isso, idealmente, estes critérios devem ser constituidos em consenso por todos da organização, para que cada um se reconheça nas diretrizes e as adote no seu dia-a-dia. E isto, as organizações ainda não têm como hábito. Este é o grande desafio, tanto dos executivos como dos consultores das organizações.
Gostaria de registrar que achei o artigo é muito pertinente ao momento econômico “Brazil” e economia global. Estamos vivenciando condições de crescimento econômico que há muito não vivenciávamos, porém, há empresas que estão “decrescendo”. Perdendo mercado para concorrência.
Empresas que traduzem qualidade de projetos em quantidade, consequentemente ficam desfocadas e se perdem no emaranhado complexo de políticas e crenças.
Quando há o desalinhamento entre o estratégico (essencial) e o acessório – temos a inércia, ou a incapacidade de reagir com prontidão e acerto às exigencias, perdendo performance e deixando de aproveitar as condições favoráveis da economia.
Parabéns pelo blog. Já li o seu livro “Fazendo a Estratégia Acontecer” e achei muito bom. Parabéns!
Gostaria de agregar um comentário a seu artigo, que acredito ser muito pertinente a sua avaliação do tema “Complexidade Predatória”, que com certeza gera impactos incalculáveis em diversas organizações deste país.
Creio que muitas empresas atualmente tem planos de crescimento ambiciosos e que para atingi-los planejam intervenções sofisticadas, geralmente com valores elevados de investimento.
Na minha visão, as empresas devem focar o seu negócio (e suas respectivas intervenções para melhorar a performance) sempre com três diretrizes, pela ordem: a) agregar valor ao cliente b) melhorar a rentabilidade c) simplificar ao máximo a gestão do negócio.
A simplicidade é uma alavanca importante nas organizações. Muito se perde quando se cria complexidade que não agrega valor.
Em primeiro lugar gostaria de parabenizar a Luzio pela iniciativa do blog.
Essa questão da priorização do portfólio de iniciativas ou de oportunidades de melhoria é um dos mais importantes fatores críticos de sucesso para transformar estratégia em ação ou para melhorarmos a performance dos processos de uma corporação, a partir da implantação de projetos de melhoria.
Faz-se necessário, então, definir um processo formal que discipline e estabeleça regras claras para a gestão dos projetos estratégicos e de melhoria, buscando um aumento de maturidade nessa sistemática.
Também é importante estabelecer um indicador de desempenho para esse processo. Temos observado em vários trabalhos que realizamos que as empresas mais bem sucedidas em implementar esse portfólio de projetos têm alcançado índices em torno de 85% de realização sobre o planejado, proporcionando assim um efetivo ganho em competitividade e melhorando os resultados do negócio.
Primeiramente gostaria de parabenizar pela iniciativa do blog, estabelcer uma rede social com conteúdo relevante hoje trata-se também de um grande desafio!
Extremamente pertinente as colocações e visões, realmente temos que ter muito foco e seguir o caminho do “keep it simple” para podermos nos diferenciar nessa nossa realidade atual “cultura do caos”. Entendo que as grandes teorias ou planos já não funcionam mais e SIM as pequenas atitudes dentro do nosso dia-a-dia!
Parabéns pelo pelo blog. Com certeza um canal importante de discussão e aprendizado para todos que compartilham da vontade do “aprender mais”.
“Excesso de Escolhas gera uma diversidade de Rupturas que a empresa não consegue realizar simultaneamente”.
A parte destacada do teu artigo traduz um dos grandes problemas de uma parcela cada vez maior de organizações – Mudar por mudar ou, simplesmente, seguir modelos “de prateleira”.
Objetivo, foco e determinação, acompanhados de uma dose grande de desenvolvimento/educação para as pessoas da organização.
Muito obrigado pelos comentários preciosos. Notem que todos mencionam a importância do FOCO e do risco de perdê-lo, dentre outras causas, pelo emaranhado de Intervenções que a empresa julga ser capaz de implementar simultaneamente. Nas organizações de altas taxas anuais de crescimento, em algum momento da sua história vivem outra Síndrome importante, que chamo de Síndrome do Toque de Midas: uma vez que a história tem demonstrado sucesso em suas Iniciativas, a empresa se julga capaz de ter êxito em qualquer nova Intervenção – e o sucesso a faz sentir-se capaz de “cuidar de tudo”.
Por isso, acho fundamental a recomendação do Luis Cossi de criar um Processo formal de Gestão das Rupturas com Indicador de Desempenho e monitoramento constante. Este mesmo processo pode cuidar da preocupação da Ermelinda de separar o “joio do trigo”, o que é Ruptura do que é Ação de Melhoria evitando um excesso de quantidade de projetos com baixa qualidade de resultado.
Outro pensamento importante parte dos comentários do Fernando Faro e do Rodrigo: é importante visar à simplificação. A complexidade interna e externa das empresas tem de fato crescido de forma exponencial – porque o número de variáveis internas e externas com as quais temos de lidar no dia a dia empresarial tem crescido de forma assustadora. Assim, surge uma tendência natural de se criar meios sofisticados para se lidar com este contexto complexo. Porém, temos de tomar um enorme cuidado para não complicar o que deveria ser simples; mas ao mesmo tempo evitar sermos simplórios naquilo que precisamos de um mínimo de formalismo. Então um dos grandes desafios dos Líderes é de fato simplificar o que for possível.
Outro comentário importante do Rodrigo diz respeito à importância das pequenas atitudes no dia a dia. Muitas vezes, pequenas ações bem implementadas, no conjunto, fazem mais diferença que grandes ações isoladamente. Este fato é bastante impressionante.
Para concluir, de fato como diz ainda a Ermelinda, o excesso de Intervenções além de prejudicar o Foco da empresa, afeta negativamente a Prontidão Estratégica da organização – sua capacidade de responder às demandas da Estratégia. Portanto, escolher com cuidado é fundamental para assegurar o Foco. Mas este processo tem de vencer nossa tendência de Inovar o tempo inteiro, gerando uma possível onda de “mudar por mudar”, como disse o Fernando Guerra. Por isso também, como o Guerra mesmo mencionou, acredito que treinamento constante é fundamental para assegurar o desenvolvimento das Equipes para que possam contribuir de forma relevante.
Fernando, Parabéns pela iniciativa do LuzioBlog. Gerar este tipo de troca de experiências com qualidade hoje na internet é raro e valoroso.
A pertinência deste tema é enorme principalmente no que se refere a cultura brasileira. Muitas vezes somos reféns de nossos desejos e anseios de melhores realizações.
O foco e uma priorização de qualidade fazem toda a diferença.
Mas constantemente sofremos interferências externas, para o mal ou para o bem.
Um fator sutilmente comentado e que considero muito importante para mitigar tais problemas a longo prazo é a comunicação.
A falta de uma comunicação com agilidade e prestígio suficientes para manter todas as forças apontadas para a direção correta ainda é uma dificuldade que muitos enfrentam. Entendo que com uma governança adequada as iniciativas menos importantes naturalmente são enfraquecidas. O que não quer dizer que não sejam realizadas, e sim que receberão menos o tom dos executivos comparando com as de maior prioridade.
Espero ter agregado ao tema.
Mais uma vez parabéns,
Um abraço