Um dos principais Fatores Críticos de Sucesso do Desenvolvimento Organizacional é a qualidade das relações interpessoais entre seus Colaboradores. A Sala dos Espelhos é um caminho poderoso para conscientizar e potencializar as pessoas na construção de relações produtivas e um Ambiente Organizacional sustentável.
Você já parou para se perguntar e, sobretudo, se responder: diante de quem eu me encontro? Onde e com quem trabalho? Quem eu lidero, quem me lidera? Será que vou parar diante de qualquer Chefe, Área e Equipe?
Minha observação atenta das pessoas se relacionando umas com as outras dentro e fora das Organizações me revelou uma dinâmica fantástica, que ilustro por meio da imagem da Sala dos Espelhos – aquela sala que podemos visitar em alguns parques de diversão, onde desfilo por espelhos que me refletem de maneira diversa e divertida: se sou magro, o espelho me reflete gordo; se sou baixo, pareço alto, etc.
A Sala dos Espelhos que queremos compartilhar com você parte do seguinte princípio básico: minhas qualidades positivas e negativas que estão inconscientes, negadas ou não assumidas – meus talentos, habilidades, força; meus “defeitos”, bloqueios, limites – me são trazidas de volta através de outro alguém ou situação externa, a fim de se tornarem autoconscientes.
A partir desta premissa, o outro pode ser um possante veículo e um excelente atalho para mim mesmo. Ele pode me revelar. Ele é meu espelho. Pode ser um espelho invertido, caricaturado, embaçado, ou até mesmo fidedigno, mas é um espelho – princípio da especularidade.
E mais: enquanto não me conscientizo, estes reflexos se tornam “fantasmas” que retornam incessantemente, fazendo-me exclamar coisas do tipo “olha eu de novo com um Chefe controlador que só sabe cobrar!”; ou “nunca sou reconhecido!”; ou “que sina a minha: de novo tenho de lidar com este tipo de gente!”.
Essa ideia pode nos incomodar bastante, porque desde pequenos nossa educação nos condiciona a ir para fora de si e apontar o dedo para o outro, colocando a salvação ou o problema nele, como se a questão habitasse somente ali (ele é assim, ele me fez assim, ela não me respeita, ele não me escuta, ele me cobra…), e ficamos grudados ali, nos vitimizando, cobrando, criticando e responsabilizando o externo por tudo, e nos distanciando cada vez mais de nós mesmos.
Observe quanto tempo você gasta observando o outro, sem fazer o caminho de volta para si, e sem se perguntar: por que será que isso (no outro) me incomoda, ou me encanta? Por que me encontro diante desta pessoa, e não de outra?
A Sala dos Espelhos é um divertido convite para esta questão humana de vital importância: ir para o outro e retornar para si; praticar não se perder de vista diante do outro; não se desligar de si. Enfim, aprender sobre si mesmo e crescer nas suas relações interpessoais – dentro e fora da Empresa.
Aceita percorrer a Sala dos Espelhos comigo? Lembre-se de deixar seu ego pendurado do lado de fora, porque ele vai estrebuchar….
Vamos lá…
Se sou uma pessoa com alto nível de cobrança ou exigência interna de perfeccionismo, muito provavelmente irei me relacionar com espelhos caricaturados, ou seja, com pessoas que me refletem com uma lente de aumento, verdadeiras caricaturas minhas: me cobram o tempo inteiro, nunca o que faço está bom o suficiente, fazem questão de apontar minhas faltas e não minhas conquistas, sempre com uma crítica afiada na ponta da língua.
A partir deste lugar crítico que ocupo dentro de mim, também posso atrair pessoas “defeituosas”, criticáveis, cobráveis que nunca fazem direito o que eu peço! Pessoas como eu – meus espelhos fidedignos!
Um exemplo que ilustra bem este espelho é o de uma Empresária que certa vez me consultou. Esta Empreendedora estava quase desistindo do seu negócio porque não conseguia atrair pessoas que fizessem minimamente bem as coisas que ela queria, do jeito que ela queria. O mundo era imperfeito demais para ela! Seu nível de autocobrança era tão terrível que ela vivia doente. E deixava os outros doentes também… Quando ela começou a se dar conta de que aquelas pessoas ao seu redor eram seus espelhos fidedignos, o reflexo se “quebrou” e ela começou a atrair pessoas a quem podia delegar mais. Ironia do destino (mais uma): era casada há anos com um “carrasco” que só sabia criticá-la! E sabe o que ela mais se ouvia dizer em casa: “Eu nunca vou ser perfeita pra você!”.
Outro espelho interessante é o invertido. Aqui, tendo a me relacionar com pessoas opostas a mim: eu sou rápida, ele é lento; sou proativa, ele é preguiçoso; sou calmo, ela é impaciente; sou carente de reconhecimento, ele não está nem aí comigo; sou tímido, ela é super comunicativa; sou racional, ela é sensível.
O fato de eu me encontrar diante de um espelho invertido já sinaliza para uma relação onde ambos estão polarizados e desequilibrados, excessivos em algo – cada um no seu extremo. É como se o outro invertido viesse para me apresentar uma outra forma que desconheço. De um lado, trata-se de relações interessantes porque propiciam o tempero: o outro me mostra o que me falta ou o que tenho em excesso, eu me conscientizo e posso me trabalhar, me aproximando mais de um caminho do meio. Por outro lado, podem ser relações perigosas também, porque ambos podem se acomodar na sua deficiência e desequilíbrio, “mamando” no outro a compensação do que lhe falta, e aí ninguém se desenvolve – “ah, ela fala por mim, eu não preciso trabalhar minha expressão, minha timidez”; “ah, ele sempre faz antes que eu faça, então deixa ele fazer”.
Existe também o espelho empoeirado (embaçado): olho, mas não me vejo. Típico de encontros ou relações cuja sensação marcante é a de “ah, ele não tem nada a ver comigo”; “como fui cruzar com essa pessoa?”; “ahh, a gente é tão diferente”; “não temos nada a ver um com o outro”. Mas, se eu limpar bem o espelho, verei meu próprio reflexo!
Neste tipo de espelho, tanto a irritação e o incômodo, quanto a admiração, a paixão e a inveja são sentimentos típicos. Aliás, quanto mais alguém me irrita, mais ele pode me revelar! Muito provavelmente, o que me irrita nele é algo que acredito ser negativo e que nego, ou que preciso desenvolver em mim. E o que me apaixona no outro, comumente é algo de positivo (muitas vezes um talento) que não acionei em mim, mas que está lá para ser acionado. Se eu não acordar, ficarei fundida (como toda “boa” paixão faz com a gente) com a potência do outro, sem nunca despertá-la em mim – “sem ele eu não sei viver”.
Por exemplo, uma Gerente em pé de guerra com um Colaborador de sua Equipe por achá-lo complicado demais. Ela lhe atribuía uma tarefa e, ao invés dele entregá-la com mínima agilidade, demorava porque ficava procurando pelo em ovo, como dizia a irritada Gestora.
Já na primeira Sessão da Sala dos Espelhos, observei que para compartilhar um simples fato, quantas voltas ela dava! Era de saltar aos olhos: parecia que a história não ia mais ter fim. Continuei observando e realmente esta era uma marca nela: um simples fato virava uma novela!
Fizemos uma conscientização. Seu liderado a refletia tão bem… mas como seu nível de autopercepção e autoconhecimento era muito baixo, proporcional ao seu alto nível de vitimização, ela não conseguia enxergar-se no reflexo. Mas, quando limpamos o espelho, a revelação foi tão forte que a partir daí sua relação com o outro complicado se tornou uma parceria, um trabalho conjunto e mútuo de transformação.
A falta de autoconhecimento e de humildade, somada à autovitimização, provoca a sensação de “ele não tem nada a ver comigo”.
Uma dica crucial – na verdade, um ponto de partida – para quem se interessar pela Sala dos Espelhos é: quando estiver diante do outro, liste num papel o que lhe incomoda (irrita) ou o que você admira nele. Feito isso, volte seu olhar para dentro e procure dentro de si estas qualidades (positivas e/ou negativas). Conscientize-se delas, veja como está lidando com elas, o que você tem feito com você mesmo e com o outro em relação a isso.
Mas, lembre-se: não deixe seu ego e sua vaidade ofuscarem sua visão. Aos poucos, eles vão se acostumando a deixar você (se) enxergar…
E você, consegue aplicar a Sala dos Espelhos para entender alguma relação provocativa que esteja vivendo hoje na sua Empresa ou na vida sua pessoal? Caso prefira não ter seu comentário publicado, envie sua questão para meu email direto: patricia@luzio.com.br.
Oi Patricia,
tudo bem? achei muito interessante o texto sobre a sala de espelhos. É uma ferramenta rica de auto-conhecimento. Gosto de fazer esse exercício de admirar algo que o outro apresenta em sua personalidade e com o que eu posso aprender. Considero a situação do espelho invertido a mais desafiante, pois quando estamos diante de um outro muito diferente de nós, ou que aparenta sê-lo o vemos como um ser estranho, bizarro, do qual queremos distância. Mas a aproximação pode ser uma experiência bastante enriquecedora no sentido de tentarmos ver o contrário do que praticamos ou acreditamos.
um grande bju,
Boa sorte!
Vanu
Vanuzia, tudo bem com você?
Obrigada pela sua participação!
Realmente, o Espelho Invertido é bem desafiante! Sobretudo porque ele provoca na gente sentimentos bem difíceis e até contraditórios, muitas vezes “politicamente incorretos” – por exemplo, atração misturada com rejeição, competição negativa, intolerância, inveja, etc.
O mais curioso também, é que muitas vezes o outro que parece ser muito diferente de nós, não é tanto assim… se limparmos bem o espelho, veremos que temos aquelas características em nós, porém com uma roupagem e numa escala diferente, e em estado de latência (Espelho Embaçado). Na convivência, podemos vir a potencializar estas qualidades em nós.
Outras vezes, claro, o outro se apresenta de fato bem diferente de mim, e aí posso encarar este encontro como uma grande oportunidade de exercitar e respeitar a alteridade.
Vale também dizer que criei esta “segmentação” dos Espelhos em Invertido, Caricaturado, Embaçado e Fidedigno para facilitar o entendimento e exercício (fins didáticos), porque na realidade, dependendo do contexto em que nos encontramos diante do outro, podemos experimentar ora um espelho, ora outro, ou vários deles ao mesmo tempo. Exemplo: sou super crítico e começo a construir uma relação com alguém mais tolerante (Espelho Invertido). Passo a admirar esta pessoa porque ela lida com o mundo de uma maneira que eu pessoalmente gostaria, mas tenho dificuldades. Na convivência, posso me espelhar, aprender com ela e acionar a mesma qualidade em mim. Ou seja: a qualidade já existia, porém em estado de latência, e eu passo a potencializá-la. O espelho aqui também é Embaçado, por isso eu não conseguia me ver!
Eu particularmente adoro o Espelho Caricaturado, porque ele grita para nós o que não queremos ou conseguimos enxergar! E como ele irrita! Ou apaixona…
Um grande abraço.
Só de ler o texto faz-se uma boa reflexão da personalidade e atitudes no ambiente adaptado. Imagino que o a dinâmica seja bem provocativa. Parabéns! ats Edgo
Edson, bacana sua participação, muito obrigada!
Além de provocativa, a meu ver a Sala dos Espelhos é divertida, já que trata de algo nada fácil – o Ego e seu maravilhoso carro alegórico – de uma maneira mais natural, acolhedora, não julgadora ou valorativa, do tipo “certo ou errado”, “bom ou mal”. Somos contraditórios, temos lá nossas perversidades, mas o importante, como dizia Einstein, não é o problema, e sim como lidamos com ele.
Você também fala em “personalidade”. Curioso, pois esta palavra vem do grego “persona” que significa “máscara”. Persona era a máscara que os atores usavam na antiguidade grega para simbolizar o personagem que iriam representar no palco. Entretanto, ao término da peça, os atores retiravam suas personas. Hoje, nós usamos máscaras para atuar nos papéis que a vida demanda, porém, infelizmente, esquecemos de retirá-las ao “voltar para casa”. E elas acabam grudando e nos fazendo perder de vista quem somos…. Vale à pena lembrarmos de tirar as personas, e a Sala dos Espelhos vem sendo uma grande oportunidade de realizar isso! Um abraço.
Olá Patrícia,
Parabéns pela “ferramenta”desenvolvida e toda a segmentação criada… me pareceu bastante interessante e muito coerente com a proposta de desenvolvimento.
Parabéns também pelo texto, que já nos provoca uma relexão somente pelo fato de lê-lo.
Um grande abraço e sucesso na divulgação,
Cecília Costacurta Junqueira
Olá, Cecília!
Muito obrigada pelo reconhecimento e incentivo.
O retorno ao Post Sala dos Espelhos tem sido muito bacana, o que atribuo ao fato dele ser fruto de muitos anos de dedicação à observação de mim mesma e do outro, e ao fato de eu simplesmente amar esta ferramenta, além da generosidade e cumplicidade dos Leitores!
Um grande abraço.