O mito de Quíron tem nos ajudado muito no nosso desenvolvimento pessoal e empresarial, sobretudo em processos de implementação de estratégia, gestão de rupturas, gestão de mudança e integração cultural, onde a percepção de si mesmo e do outro são fundamentais para uma real mobilização e transformação dos envolvidos…
Desde muito cedo me interesso por mitologias, sobretudo a grega. Por se tratarem de narrativas simbólicas, elas têm o poder de abrir janelas através das quais podemos vislumbrar paisagens bem familiares, imagens que fazem muito sentido onde quer que seja, ainda mais no ambiente de trabalho, onde passamos boa parte das nossas vidas.
É o caso de Quíron, grande figura da mitologia grega, também conhecido como Kíron ou Quirão.
Deixe-me contar sua história…
Era uma vez o deus Cronos (do grego Κρόνος, que significa “tempo”), titã poderoso e típico Don Juan, casado com uma mulher temida pela fúria com que aniquilava as amantes de seu marido volúvel.
Cronos andava atrás da bela ninfa Fílira, que fugia dele como o diabo foge da cruz, pois conhecia de longe sua fama e a de sua terrível esposa. Mesmo sendo uma ninfa do mar, desconhecia as profundezas da natureza humana e não percebeu que quanto mais rejeitava o insaciável Cronos, mais enlouquecido de desejo por ela ele ficava…
Até que um dia ele se cansou da paixão não correspondida e decidiu dominá-la na marra! Transformou-se num cavalo, metamorfoseou Fílira numa égua, saiu a galope atrás dela e finalmente montou nela. Deste cruzamento nasceu o centauro Quíron, metade homem, metade cavalo.
Horrorizada com a aparência de seu filho, Fílira o rejeitou e abandonou à sorte…
Apolo, o deus da Beleza, encontrou Quíron e o adotou. Com o passar do tempo, o centauro se tornou um grande sábio, mestre na arte da cura, da guerra e da música, astrônomo, alquimista e erveiro de mãos cheias – Quíron, do grego Χείρων, significa “mão” (quiromancia, quiropatia…).
Era tamanha a sua sabedoria que deuses e reis entregavam em suas mãos a educação de seus filhos – dentre eles, Asclépio, considerado o pai da Medicina.
Porém, Quíron, o grande Curador, carregava na alma uma ferida profunda: a vergonha de sua metade cavalo, vergonha essa que motivou sua própria mãe a abandoná-lo…
Era orgulhoso de sua metade humana sábia e fazia de tudo para cultivá-la. Já a sua metade besta lhe era um grande tormento…
Um belo dia, numa batalha, seu discípulo e amigo Hércules, sem querer atirou uma flecha cuja ponta envenenada atingiu em cheio a pata do mestre Quíron, abrindo ali uma ferida incurável que diziam exalar um fedor insuportável.
O grande Curador arrastava agora uma profunda e incurável ferida a céu aberto…
Sou apaixonada por este mito pela sua rica simbologia e pelas lições de vida que traz.
Compartilho agora com você minha tradução desta simbologia.
O centauro, metade homem, metade cavalo, é um símbolo poderoso da natureza humana adestrada, educada e civilizada. Afinal de contas, todos nós temos uma consciência dita inferior ou perversa (demasiadamente humana), simbolizada pelas patas do cavalo; e uma consciência dita superior (culta), simbolizada pela metade homem. De um lado, somos seres morais e éticos, racionais e coerentes, limpinhos e cheirosos; de outro, somos contraditórios, sentimos inveja e fúria, desejos de transgressão, sem contar nossos líquidos e sólidos nada cheirosos.
Quíron teve sua metade besta rejeitada pela sua mãe – logo a mãe que é um símbolo de amor, aceitação e acolhimento humano. Quíron não foi aceito, e também não se aceitou. E esta se tornou sua grande ferida de alma.
E exatamente o que ele mais negava (sua pata) foi atingido pela flecha envenenada de Hércules. Justamente ali, abriu-se uma ferida fedida que chamava toda a atenção sobre o que ele mais se esforçava por disfarçar. Que ironia…
Esta ironia, infelizmente, é quase uma equação matemática: tudo o que mais nego em mim bate à minha porta, mais cedo ou mais tarde. Dito de outra forma: minhas maiores dificuldades me são trazidas por um outro alguém ou por uma situação externa, sempre como uma grande oportunidade de autoconhecimento e transformação. Afinal, somos todos Curadores-Feridos!
Darei alguns exemplos quiróticos com os quais me deparei e continuo me deparando na minha vida pessoal e profissional.
É muito comum atuarmos profissionalmente com aquilo que mais temos dificuldade. Muitas vezes, sem nem saber, nos tornamos até especialistas nas nossas feridas! Já notou que pessoas da área de comunicação, por exemplo, costumam ter sérias dificuldades de expressão? Ou não sabem escutar, dialogar?
Para ilustrar, outro dia, um colaborador da área de comunicação interna de uma empresa (de Propaganda e Marketing), convidou-me para opinar sobre a ferramenta “Conversas” que ele havia criado e que iria implementar na companhia, que tinha como objetivo estimular a troca e o compartilhamento sinceros entre colaboradores e líderes. Escutei por mais de uma hora ele falar, enquanto ía registrando num papel minhas opiniões – as quais ele havia pedido. De repente me surpreendo com um “desculpe, mas tenho uma reunião agora”. Ele se levantou, recolheu seu material, foi embora e nunca mais trocamos. Ou seja: só faltou a conversa!
É frequente também encontrarmos pessoas que trabalham em área de processos, expert em complicar as coisas, com sérias dificuldades quando o assunto é fluidez. Certa vez, entrevistei uma Gerente de Processos de uma grande companhia que, ao narrar simples acontecimentos, usava palavras e frases infindáveis cheias de curvas, subidas e descidas…
No campo da saúde, é mais comum do que imaginamos a atuação de endocrinologistas obesos; cardiologistas hipertensos; gastroenterologistas com refluxo, gastrite e até úlcera; psicólogos com quadro de neurose crônica, beirando a psicose.
Como consultores, é habitual nos depararmos com profissionais da área de vendas – cuja missão é entender e atender às necessidades do cliente – que não conseguem escutar o outro; profissionais da área de RH que não entendem nada de si mesmos, e muito menos de gente.
Mais uma experiência inesquecível: certa vez, recebemos na Luzio um consultor com desejo de se tornar um parceiro nosso, e que se apresentou como alguém expert em projetos de identificação e revisão de valores. Ele iniciou a conversa dizendo que o mais comum no mercado era a proposição de “valores prontos” ao cliente, e que ele fazia um trabalho vanguardista, na contramão disso. Em seguida, abriu uma apresentação bem padrão em Power Point, que se resumia numa lista infindável de conceitos extraídos de livros, com centenas de abre aspas-fecha aspas. Aos 10 minutos de reunião, já me sentia tonta com tantos nomes de autores. E a pergunta que não se calava era: mas e você, o que diz sobre tudo isso que “já está pronto”? Definitivamente, a vanguarda estava no nível de inconsciência…
É importante que fique claro que o problema não é a ferida em si, mas sim a percepção que temos dela e o trabalho de transformação que fazemos sobre ela.
O mito do centauro Quíron tem nos ajudado muito no nosso desenvolvimento pessoal e empresarial, nas seguintes situações:
- Em processos de construção de singularidade, já que singularidade implica apropriação dos próprios talentos e limites (da empresa e de seus líderes), e habilidade para lidar com eles;
- Em processos de implementação de estratégia, gestão de rupturas, gestão de mudança e integração cultural, onde a percepção de si mesmo e do outro são fundamentais para uma real mobilização e transformação dos envolvidos;
- Quando as competências exigidas pelo cargo/função envolvem habilidades que são, na verdade, grandes feridas e que precisam ser conscientes e melhor trabalhadas;
- Em ambientes onde o problema ou a dificuldade “costumam ser sempre (d)o outro”, e onde é urgente o entendimento do nosso talento em atrair colegas de trabalho, equipes, líderes, namorados ou cônjuges que nos assombram com nossas maiores feridas… (se interessar, leia meu post “Sala dos Espelhos” que trata disso);
- Quando o rolo compressor e o piloto automático são grandes empecilhos (e até álibis) para não encararmos nossas próprias dificuldades.
Portanto, caro leitor, já que somos quiróticos por natureza, o melhor que temos a fazer é lambermos nossas patas, cuidarmos com carinho de nossas feridas (dificuldades, limites, sentimentos nada bonitinhos) para que possamos transformá-las e até quem sabe, curá-las; e assim podermos também ajudar outras pessoas com feridas semelhantes a se conscientizarem e cuidarem das próprias patas!
Um caso muito interessante que me marcou e que vale à pena ser compartilhado: um rapaz extremamente tímido, com profunda dificuldade de expressão, foi trabalhar (obviamente) na área de endomarketing de uma empresa, acreditando que iria atuar sempre nos bastidores, mas ironicamente, volta e meia se via em situações de alta exposição dentro da empresa, o que gerava muita ansiedade nele.
Há um ano e meio, iniciamos um trabalho de coaching, onde ele passou a fazer contato diário com a dinâmica da sua timidez e de seus medos. Lambendo sua ferida, percebeu que sua timidez era reflexo de seu pavor de errar e se mostrar limitado – humano. Começou a exercitar se apropriar de sua humanidade e hoje, este tímido rapaz atua em posição de liderança na mesma área. O mais impressionante deste caso é que ele passou a atrair para sua equipe pessoas com as mesmas feridas, e atualmente está fazendo um trabalho maravilhoso com elas, multiplicando sua experiência. Este é um verdadeiro exemplo quirótico!
Você consegue enxergar Quíron em si mesmo ou nas pessoas ao seu redor? Tem consciência de alguma ferida que gera tensão no seu negócio, na sua área ou no seu desenvolvimento pessoal? Compartilhe seu olhar e experiência conosco!
Patrícia,
Você foi precisa com o texto. Sem conseguir fugir de ser “piegas”, literalmente você “pôs o dedo na ferida”. É duro ter que admitir nossos fraquezas…; pontos fracos…; deficiências…. No fundo sabemos que quanto mais cedo nós as enfrentarmos, menos sofremos. O duro é encontrar o mecanismo para não nos deixar engodar pelo nosso inconscientemente, que sempre vai ficar adiando o dia da confissão.
Tão difícil quanto aceitar e mudar nossa condição é encontrar o ponto de equilíbrio para ajudar a outros que insistem em desconsiderar suas fraquezas.
Que Deus nos acuda. Tanto para uma posição conosco, como para com os outros.
Parabéns.
Ariel da Silveira
Caro Ariel,
Eis aí uma maneira leve de tratar de coisas não muito leves (feridas, defeitos, inconsciente e autossabotagens): dando umas risadas…
Você me fez rir solto com seu comentário!
Risos à parte… o grande desafio é criarmos espaços (dentro e fora da gente) para fazermos contato com nossas feridas. Pois são tantas as distrações e impedimentos que corremos o risco de só fazermos isso quando o tapete vira voador, de tanto entulho sob ele…
E no ambiente corporativo, onde a complexidade humana atinge seu clímax (declarado ou não), onde a sobrevivência, a competição, o poder, os resultados e a necessidade de reconhecimento colorem a trama, o desafio é maior ainda!
Como sempre (me) digo, este é um trabalho de formiguinha! Mas, vale à pena!!!
Muito obrigada pelo sensível comentário!
Abraço,
Patrícia Luzio.
Patrícia, lindo seu texto!!!!
Sou um exemplo nato do Quíron. Sou disléxica, sempre tive dificuldade para ler e escrever (fatores primordiais na comunicação). O que me trouxe uma série de inseguranças e dificuldades ao longo da vida. Mas mesmo assim, me formei em Comunicação, trabalhei muito tempo com Marketing e recentemente escrevi até um livro “Dissolvendo Pedras” onde falo sobre a superação das dificuldades/ feridas.
Bjs, Andréa De Callis
Desde ontem, tenho recebido diversos comentários diretamente no meu email, com narrativas de experiências muito interessantes!
Este trabalho que faço com pessoas exige de mim um movimento constante de autoconscientização: todas estas pessoas trazem questões pessoais e profissionais que também dizem respeito às minhas próprias questões pessoais e profissionais, com roupagens e em escalas diferentes.
Por exemplo: fico em contato frequente com a intolerância das pessoas consigo próprias e com os colegas, subordinados e familiares; com a dificuldade em errar e em aceitar os próprios limites e os limites do outro. A intolerância delas me remete diretamente à minha própria intolerância com as pessoas e comigo mesma.
Lidar com pessoas exige muita paciência consigo próprio, com o outro e também com a impaciência do outro. E esta é uma das feridas que tenho de lamber!
É curioso que já no início das sessões de coaching ou nos trabalhos de transformação que realizo, penso “e hoje, qual será o aprendizado sobre mim mesma, além do outro?”…
Outro exemplo: na Luzio, atuamos com Planejamento Estratégico junto aos nossos clientes, e volta e meia temos de tocar uma sirene alta e pararmos para fazer nosso próprio planejamento, para fazermos nossas escolhas e não-escolhas! Também lambemos as nossas feridas…
Ajudar o outro a se transformar exige atenção constante com a própria transformação. Esta é a essência de Quíron!
Um abraço aos leitores,
Patrícia Luzio
Andréa, que bacana seu exemplo quirótico!!
Me faz lembrar de tantos defeitos nossos que escondem ou podem vir a revelar talentos – vide meu outro post “Talentos por detrás dos Defeitos”, ou mesmo “A Sala dos Espelhos”, dinâmica que nasceu da minha própria intolerância comigo mesma e com as pessoas, e que tem ajudado tanta gente a transformar a sua própria.
É só nos debruçarmos um pouco para descobrirmos feridas que passaram a ser ferramentas eficazes de trabalho, ou até mesmo vocação!
Parabéns pelo seu trabalho (quirótico)!
Beijão.
Oi Patricia, tudo bem? Fui sua “aluna” há cerca de uns 7/8 anos, fazia cursos com vc, mas depois engravidei e vc me disse que não poderia continuar com o curso no período da gravidez, depois eu acabei perdendo o contado com vc. Bom, queria saber se vc continua com aqueles trabalhos e onde posso te encontrar.
abraços,
Alessandra
Oi, Alessandra, como vai você?! Você pode me contatar pelo meu email patricia@luzio.com.br. Aguardo seu contato, beijão.
HOJE TOMEI CONHECIMMENTO DESSE MITO E ME IDENTIFIQUEI NELE.FOI MARAVILHOSO ADOREI ! CONHEÇO QUASE TODOS OS MITOS ,MAS ESSE SEM SOMBRA DE DÚVIDA ,É O MELHOR!
Bacana, Eledir! Também sou fã de Quíron, e cada vez mais vejo como ele pode fazer sentido para todos mundo! Abraço.